quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Exu... Nem Anjo, Nem Demônio.

Exu é um dos grandes pontos de conflito nas religiões de raíz africana com relação às outras religiões, por falta de entendimento, pela ignorância e pelo preconceito.
Muitos acreditam que os Exus são Demônios, maus, ruins, perversos, que bebem sangue e se regozijam com as desgraças que podem provocar (Stephen King perto deles é um pobre inocente).
É necessário entender que no sincretismo afro-católico (imposto num processo de aculturação dos negros pelos padres católicos) os Orixás foram associados a Santos Católicos, inclusive Exu (Bará), que é representado por Santo Antônio. Mas, porquê este Orixá, irmão de Ogum - conforme a tradição africana, animado, gozador, alegre, extrovertido, sincero e sobretudo amigo, foi comparado ao Diabo das profundezas dos infernos?
Esta história tem origem há 6.000 anos, na Mesopotâmia.
Na Mesopotâmia os males da vida que não constituíssem catástrofes naturais eram atribuídos aos Demônios (até hoje essa crença permanece...).
Os Sacerdotes , para combater as forças do mal, tinham que conhecer o nome dos Demônios e faziam enormes listas quase intermináveis. O Demônio mau era conhecido genericamente como UTUKKU . O grupo de sete Demônios maus é com frequência encontrado em encantamentos antigos. Se dividiam em machos e fêmeas. Tinham a forma de meio-humano e meio-animal: Cabeça e tronco de homem ou mulher, cintura e pernas de cabra e garras nas mãos. Tinham sede de sangue, de preferência humano, mas, aceitavam de outros animais. Os Demônios frequentavam os túmulos, caminhos (encruzas), lugares ermos e desertos, especialmente à noite.
Nem todos eram maus, haviam os Demônios bons que eram evocados para combater os maus. Demônios benignos eram representados como Gênios Guardiões, em número de sete, que guardavam as porteiras, portas dos templos, cemitérios, encruzas, casas e palácios.
A Demonologia Mesopotâmica influenciou diversos povos: Hebreus, Gregos, Romanos, Cristãos e outros. Sobrevive até hoje nos rituais Satânicos espalhados pelo mundo.
No Brasil, no período colonial, os negros africanos dançavam e, em transe, assustavam os brancos que se afastavam ou agrediam os negros escravos dizendo que eles estavam possuídos por Demônios.
Com o passar do tempo, os brancos tomaram conhecimento dos sacrifícios que os negros ofereciam aos Exus, e isto reafirmou a idéia de que eles estavam "possuídos por demônios".
As cores ritualística de Exu (vermelho e preto), também reafirmaram os medos e a fascinação que rondavam as pessoas mais sensíveis.
Assim, o que aconteceu foi uma associação indevida, maldosa, dos demônios Judaico-Cristãos aos Exus da Quimbanda, e ainda ao Orixá Exu (Bará), simplesmente por similaridades em relação a cores, moradas, manifestação de personalidade, etc. Com o tempo, isto foi caindo no gosto popular, na psique de pessoas mentalmente e espiritualmente perturbadas e começou a se construir "a visão", de que Exu é o Demônio.
Muitos médiuns despreparados e anímicos, ou perturbados mental e espiritualmente, recebiam Exus que diziam-se Demônios. Nessa onda de terror, ou de horror, alguns autores Umbandistas do passado, por falta de conhecimento ou por ignorância, fizeram tabelas de "nomes cabalísticos dos diabos" associando esses nomes aos Exus de Quimbanda.
Comerciantes inescrupulosos ou, simplesmente, ignorantes, criaram imagens de Exus com aparência de Demônios, cada vez mais medonhos e aterradores (chifres, rabos, partes de animais... ) construindo no imaginário de muitos médiuns e da população brasileira o estereótipo de Exu = Diabo, Exu = Satanás, Exu = Coisa Ruim.
Hoje em dia, as casas Africanistas (centros, terreiros, tendas...) estão abolindo essas imagens e condenando o seu uso devido aos estudos, pelo conhecimento e pela orientação dos reais Exus. Porém, o mal foi feito, o estereótipo atingiu a psique das mentes mais fracas e, muitas vezes, vemos em certos canais de televisão, a invocação dessas aberrações e a indevida associação aos Exus de Quimbanda. O que podemos dizer é que quem invoca a Deus, Deus o tem. Quem invoca o Diabo, o Diabo o tem.
Algumas correntes religiosas estão alimentando na população a visão de que a culpa para as mazelas de suas vidas são os Exus (ou, como dizem, o Diabo), os quais se manifestam babando, com as mãos tortas, grunhindo, gritando "vou levar! vou levar...!!!", todos tortos e formatados dentro de um psique moldado e caricato.
Essas religiões estão alimentando o medo, a ignorância, o preconceito, a discriminação e a ilusão de que a dor alheia é aplicada pelas religiões africanas e pelos seus Guias, principalmente os Exus.
Exu combate o mal. É um executor da Lei, é justo, tem tranquilidade em suas decisões e em seus trabalhos. Ele não é, e nunca foi o Diabo... Nem tampouco Anjo.

Post baseado no texto de Pai Guilherme d'Bará, originalmente publicado no Blog Abassá Babá Oke Bará Lanã

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