sábado, 11 de agosto de 2012

A Linha dos Exus

"Na África, Exu é um Orixá e seu culto difere da forma como são entendidos e tratados os que aqui incorporam em seus médiuns e dão passes e consultas.
Lá, Exu é um mensageiro que leva os pedidos das pessoas até os Orixás e traz as respostas.
Ele sempre é o primeiro a ser servido e a ser despachado, levando embora todos os problemas e perturbações.
É respeitado como um Orixá, nunca como um espírito.
Ele tem sua forma de ser cultuado e oferendado e tem seus sacerdotes, seu Omo-Exu (filhos de Exu) que o tem em grande estima e o trata com o mesmo respeito que dedica a todos os outros Orixás.
Quanto à Umbanda , não há culto aos Orixás sem presença de Exu. Mas ele, diferentemente da África, aqui recebeu uma linha à "esquerda" por meio da qual os espíritos manifestadores dos seus mistérios podem incorporar em seus médiuns e consultar as pessoas, auxiliando-as nas suas necessidades e dificuldades materiais ou espirituais.
Exu, na Umbanda, é uma Linha de trabalhos espirituais que se assenta e atua à esquerda dos seus médiuns.
Eles precisam ser oferendados nos seus campos de ação, tais como: nas matas, nos rios, nas lagoas, à beira-mar, nos cemitérios, nos caminhos, nas encruzilhadas, nas pedreiras, etc.
Os seus nomes simbólicos indicam seus campos de ações e onde devem ser oferendados.
Quando incorporam, são alegres, falantes, galhofeiros, sarcásticos, irônicos e até meio chulos. Tudo isso faz parte do arquétipo marcante que assumiram na Umbanda.
Seus nomes variam desde nomes dados a pessoas (João Caveira) até nomes indígenas (Marabá, Jibóia, Arranca-Tocos, Marambaia, Cipó, Folha-Seca, etc).
Todos são espíritos que já viveram na Terra, têm sua história e se tornaram Exus a duras penas, pois é sob a irradiação do Orixá Exu que estão evoluindo e servindo à Lei Maior.
Médiuns mal orientados ou mal doutrinados dão vazão aos seus recalques ou sentimentos íntimos negativos, e aí o seu "Exu de Trabalho" apresenta-se grosseiro, chulo, desrespeitoso.
Já com médiuns bem doutrinados e preparados, Exu não deixa de ser o que é, mas o é de uma forma agradável e respeitosa.
Cada médium tem um Exu guardião e um Exu de trabalho.
O Exu Guardião é ligado ao Orixá do médium e o Exu de trabalhos espirituais é ligado ao guia chefe ou ao mentor dos seus trabalhos.

Origem Africana

Muitos autores o descrevem como o primeiro Orixá a ser criado por Olorum, fato esse que o torna o primogênito na Teogonia Nagô.
Seu culto está associado à procriação e seu símbolo mais ostensivo é um cetro fálico. Inclusive, em alguns dos seus assentamentos, esse símbolo o identifica de imediato.
Uma das razões de ele ser o primeiro a ser oferendado é que, antes de algo existir no exterior de Olorum, só existia o vazio à volta de sua morada interior. E Exu é o Orixá regente do vazio.
Então, como só existia o vazio e era nele que tudo seria construído, qualquer coisa só poderia ser construída com a anuência de Exu.
Os Orixás concordaram em dar a primazia a primogenitura a ele, senão nada construiriam.
O vazio é anterior a tudo e Oxalá só pôde criar o espaço com a concordância de Exu, pois ele foi criado justamente em cima dos domínios de Exu.
Outro dos mistérios do Orixá Exu rege sobre a reprodução e refere-se a órgão genital masculino e sobre o vigor sexual.
Mas, esse e alguns outros mistérios regidos pro Exu não prosperaram em nossa cultura judaico-cristã que associa o sexo ao pecado original e estigmatiza qualquer alusão nesse sentido à ação do diabo.
Como quem vence e quem manda é a maioria, o melhor a ser feito com Exu era o que já haviam feito com os indígenas: cobri-lo com uma capa, vesti-lo com um calção qualquer e ocultar tão acintosa ascendência dele sobre os seres humanos, que procriam justamente com o auxílio do dito cujo, ostentado por esse enigmático Orixá em seu cetro fálico.
Colocaram na mão dele um novo símbolo: o tridente de Netuno, estigmatizado pelos cristãos novos como símbolo do maligno.
Outro dos mistérios de Exu são as cabaças, que simbolizam o útero e o poder procriador feminino. Se ele rege o mistério da sexualidade masculina, da feminina ele é o guardião.
Exu, de fato e de direito, é o guardião da sexualidade em seu aspecto feminino e sua ascendência é inegável." (1).

"Exu é o orixá da comunicação. É o guardião das aldeias, cidades, casas e do axé, das coisas que são feitas e do comportamento humano. A palavra Èsù em yorubá significa “esfera” e, na verdade, Exu é o orixá do movimento.
Ele é quem deve receber as oferendas em primeiro lugar a fim de assegurar que tudo corra bem e de garantir que sua função de mensageiro entre o Orun  (o mundo material ) e o Aiye (o mundo espiritual) seja plenamente realizada.
Na  época das colonizações, o Exu foi sincretizado erroneamente com o diabo cristão pelos colonizadores, devido ao seu estilo irreverente, brincalhão e a forma como é representado no culto africano, um falo humano ereto, simbolizando a fertilidade.
É comumente confundido com a figura de Satanás, o que é um absurdo na construção teológica yorubá, posto que não está em oposição a Deus, muito menos é considerado uma personificação do mal. Mesmo porque nesta religião não existem diabos ou entidades encarregadas única e exclusivamente de coisas ruins como fazem as religiões cristãs. Estas pregam que tudo o que acontece de errado é culpa de um único ser que foi expulso; pelo contrário, na mitologia yoruba, bem como no candomblé, cada uma das entidades (Orixás) tem sua porção positiva e negativa assim como o próprio ser humano.
Como tudo no universo possui de um modo geral dois lados, positivo e negativo, Exu também funciona de forma positiva e negativa. Daí ser Exu considerado o mais humano dos orixás, pois o seu caráter lembra o do ser humano que é de um modo geral muito mutante em suas ações e atitudes" (2).


Lenda de Exu



"Exu é o cozinheiro de todos os Orixás. Mestre nos temperos, Exu faz de tudo na cozinha: axoxó, benguiri, omolocum, amalá, farofa... Tudo com muita pimenta!
Até que um dia falta pimenta na cozinha e Exu resolve fazer sem pimenta mesmo.
Xangô não gosta nem um  pouco e pede a Exu que pegue o cavalo e traga pimenta.
Enquanto Exu buscava pimenta, os Orixás começaram a comer a comida preparada por Exu, sem pimenta mesmo. E acharam foi bom!
Xangô quando vê a panela vazia, ordena aos Orixás que encham a panela com água.
Exu chega e, furioso ao ver sua panela cheia de água e sem comida, ordena: a partir de agora, Exu é o primeiro a comer e sem a comida de Exu, nenhuma comunicação acontece entre a Terra e os Orixás. No Candomblé, até hoje, toda cerimônia começa com padê, de Exu" (3).


(1) - UMBANDA, Os Arquétipos da, As Hierarquias Espirituais dos Orixás - Rubens Saraceni - 2007, Madras Editora Ltda, in Os Exus na Umbanda, pg 121-124.
(2) Exu (Orixá) - Wikipedia, a enciclopédia livre.
(3) Lenda do Orixá Exu (Esú) - postado no Youtube no canal de Victorcabreu.

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