domingo, 10 de junho de 2012

O Perfil do Umbandista

Dentre aqueles que freqüentam um terreiro de Umbanda na condição de médium de incorporação destacam-se os que vivem verdadeiramente a fé umbandista. A condição de umbandista não se limita apenas às roupas, às guias, ao ritual ou ao dom que recebeu e aprendeu a desenvolver ao longo dos anos. A pessoa umbandista vai além das paredes, muitas vezes caiadas, dos templos e das tendas. Há quem diga que umbandista é aquela pessoa que faz parte de um terreiro e que serve de “cavalo” para os Caboclos e Pretos Velhos. Ora, sabe-se que todo aparelho de uma dessas Entidades é um umbandista porque faz parte da religião de Umbanda. Entretanto, ser umbandista é algo mais profundo do que apenas uma apresentação exterior de força espiritual ou trabalho mediúnico. O umbandista, antes de qualquer coisa é um indivíduo comum, suscetível a erros e tropeços, que tem uma vida cotidiana como a de qualquer ser humano e que também está sujeito a enfermidades, violências e também à morte do corpo. O umbandista não é nenhum super-homem, e tampouco um poderoso mensageiro dos céus. Pelo contrário, é mais um entre os milhões de espíritos que estão no Planeta com a árdua e necessária tarefa de resgate dos erros cometidos em vidas anteriores.
Uma das grandes características do umbandista que vive a religião que professa é a abnegação, particularidade muito bem exemplificada por Jesus e por tantos outros que se entregaram totalmente em favor de outrem. O ato de sacrificar a própria vida pelo bem comum deu ao Galileu o título de grande exemplo a ser seguido por todos aqueles que quiserem estufar o peito e dizer que são umbandistas. Primeiramente é necessário saber doar-se em favor do próximo.
Não há hoje em dia a necessidade de pendurar-se numa cruz, ou receber uma coroa feita de galhos cheios de espinhos, como Jesus fez há dois mil anos. Mas, é preciso entregar-se diariamente em favor dos outros num trabalho contínuo de sacrifício do Ego.
O umbandista precisa ser abnegado. Não se importando com o que acontecerá a si mesmo, ele dá tudo o que tem para que os seres à sua volta se sintam felizes de alguma forma. Esta abnegação, porém, é exercida de forma desinteressada, gratuita mesmo. A palavra gratuita vem de “graça”, ou seja, aquilo que é dado ou feito sem esperar nada em troca. Nenhuma riqueza, nenhum benefício ou qualquer outra coisa que possa servir de pagamento pelo favor prestado.
Exercitando a abnegação (ato de negar-se a si mesmo), o umbandista é capaz de “emprestar” seu corpo e seu intelecto aos Caboclos, sem desejar alguma bênção especial. É capaz de estender a mão aos amigos e aos inimigos sem exigir deles a gratidão ou o reconhecimento. É capaz de perdoar aqueles que o ofenderam, sem jogar-lhes na face, a culpa. Praticando a abnegação, muitas vezes, o umbandista despende seu tempo, suas roupas, seus recursos, sua saúde e seus tesouros mundanos em prol de alguém que nem mesmo conhece. Há muitos exemplos disso nas parábolas proferidas por Jesus. A do bom samaritano é o maior de todos.
A pessoa que, sob qualquer desculpa, solicita ou recebe alguma remuneração pelo bem que prestou, está longe de dizer que verdadeiramente é umbandista. Se, em algum momento, esperou dos irmãos, sejam eles encarnados ou desencarnados, qualquer recompensa, está longe do que realmente deve ser um Filho de Umbanda. Se qualquer ato que beneficiou o irmão foi, de alguma forma, “pago”, deixou de ser uma atitude abnegada para ser apenas um negócio.
A comercialização, nesses casos, não é apenas a troca de serviços por bens monetários, como pensa a maioria. Trata-se também das vantagens que muitos membros da religião esperam receber por estarem fazendo o que lhes é de obrigação fazer. Desprovidos de qualquer sentimento tipicamente humanista, existem muitos umbandistas que cobram dos Mensageiros de Aruanda alguma vantagenzinha, algo extremamente egoísta e mesquinho. É aquele que vê na tal caridade que praticou no terreiro a oportunidade de ganhar a simpatia do Chefe ou da Mãe de Santo e, com isso, obter favores. É também aquele que espera um reconhecimento público da caridade prestada, e torna-se – em muitos casos – um vaidoso e exibido médium sempre querendo “dar” mais alguma coisa em troca de outra.
Aquele que faz da caridade um trampolim para “subir” na vida, já deixou a abnegação para trás há muito tempo. Aquele que achou no serviço em favor do próximo uma oportunidade para “ganhar a vida” perdeu a chance de abnegar-se pelo irmão. E aquele que diz que ostenta a bandeira da Caridade – palavra de ordem maior da Umbanda – jamais deve trocá-la por alguma ninharia ou por uma grande soma. Mas, deve procurar conservar essa grande característica do real religioso umbandista: a abnegação!

Julio Cezar Gomes Pinto

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